segunda-feira, 27 de junho de 2011
Chico Bezerra
Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti (Riacho do Sangue, 29 de agosto de 1831 — Rio de Janeiro, 11 de abril de 1900) foi um médico, militar, escritor, jornalista, político e expoente da Doutrina Espírita no Brasil.
Os homens vendem a luz.
E profanam
vendem água
e se enganam
porque a vida
Deus deu de graça
no seu Estado Natural
os homens querem vender o sol
e serem donos da lua
fincaram uma bandeira nacionalista
lá na lua
que sempre foi dos namorados
os namorados conquistaram a lua
com suas carícia e beijos
e juras de amor
a lua é dos namorados de todas as nacionalidades
vendem água
e se enganam
porque a vida
Deus deu de graça
no seu Estado Natural
os homens querem vender o sol
e serem donos da lua
fincaram uma bandeira nacionalista
lá na lua
que sempre foi dos namorados
os namorados conquistaram a lua
com suas carícia e beijos
e juras de amor
a lua é dos namorados de todas as nacionalidades
Chico Bezerra.
Luis Fernando Verissimo.
Luis Fernando Verissimo (Porto Alegre, 26 de setembro de 1936) é um escritor brasileiro. Mais conhecido por suas crônicas e textos de humor, mais precisamente de sátiras de costumes, publicados diariamente em vários jornais brasileiros, Verissimo é também cartunista e tradutor, além de roteirista de televisão, autor de teatro e romancista bissexto. Já foi publicitário e copy desk de jornal. É ainda músico, tendo tocado saxofone em alguns conjuntos. Com mais de 60 títulos publicados, é um dos mais populares escritores brasileiros contemporâneos. É filho do também escritor Erico Verissimo.
Os preguiçosos
Dois preguiçosos estão sentados, cada um na sua cadeira de balanço, sem vontade nem de balançar. Um deles diz:
- Será que está chuvendo?
O outro:
- Acho que está.
- Será?
O cachorro entra da rua e senta entre os dois preguiçosos.
- E então?
- O cachorro tá seco...
- Será que está chuvendo?
O outro:
- Acho que está.
- Será?
- Não sei.
-Vai lá fora ver.
- Eu não. Vai você.
- Eu não.
- Chama o cachorro.
- Chama você.
- Tupi!O cachorro entra da rua e senta entre os dois preguiçosos.
- E então?
- O cachorro tá seco...
Luis Fernando Verissimo.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Carlos Eduardo Novaes
Carlos Eduardo Novaes nasceu em 1959 no Rio de Janeiro. Morou durante algum tempo em Salvador, mas acabou voltando à capital carioca. Tentou diversas profissões, mas foi somente quando passou a escrever sobre esportes para um jornal que descobriu seu talento para a literatura. A partir daí, produziu não só crônicas, contos e romances, mas também peças de teatro e uma novela de televisão (chega mais - 1980). Segundo ele mesmo, não para de criar nem quando esta dormindo.
Titia em apuros.
Minha tia Valda, uma robusta senhora de 68 anos, gostou de uma camisa polo que viu na vitrine de uma loja de artigos masculinos.
- Infelizmente não temos o seu tamanho nessa cor - respondeu o vendedor, solícito.
Não sei se é uma maldição que persegue nossa família, mas nunca conseguimos os artigos que nos atraem nas vitrines. Não tem a cor ou não tem o modelo ou não tem o tamanho. Uma ocasião, apaixonei=me por um sapato que vi numa vitrine em Copacabana. O vendedor fez-me sentar e apareceu com outro modelo (achando que ia me levar na conversa).
- Quero aquele da vitrine!
- Infelizmente - disse ele -, aquele nós só temos um pé!
É ou não é uma maldição? Acontece de tudo para frustrar os desejos de consumo de nossa família. É inacreditável, um sapato na vitrine sem seu par. Levantei-me e reagi, carregado de indignação:
- O que houve com o outro pé? Venderam para o Saci?
Tia Valda preferiu a preta. Pegou a camisa e viu a letra P na etiqueta. Perguntou se não tinha M. Não tinha, mas para não perder a comissão, o vendedor preferiu dizer que P era o tamanho da titia. Qualquer vesgo verificaria que tia Valda, com seu corpo de halterofilista búlgara, não caberia dentro daquela camisa. O vendedor, porém, veio com a conversa de que o fabricante fazia números maiores e coisa e tal. Titia acreditou e se enfiou no cubículo de experimentar roupas, que só não se confunde com uma solitária porque há uma cortina no lugar das grandes. Vestiu a camisa, constatou que o P significa P mesmo e, no momento de retirá-la, ela ficou presa no meio do caminho, cobrindo a cabeça de titia.
Ti Valda ainda insistiu, debatendo-se entre as paredes do cubículo, mas a camisa encalhara como um navio num banco de areia. Braços erguidos, rosto coberto, titia começou a sentir calor, falta de ar e foi entrando em pânico Para não sair da cabine às cegas, feito um boi-bumbá, resolveu gritar. Mas gritar o quê? Nunca tinha estado numa situação dessas. O que gritar quando se luta desesperadamente com uma camisa? Sem se lembrar de nada em especial, encheu os pulmões e berrou:
- Socorro! Socorro!
Era de ver: a loja inteira se despencou na direção da cabine, vendedores, fregueses, até a moça do caixa foi atrás. Não se podia pensar num assalto: não cabem duas pessoas nessas cabines. Talvez uma barata. O vendedor que a atendia puxou a cortina e surgiu tia Valda, braços levantados, cabeça coberta, rodopiando feito uma vaca brava.
- Momentinho - pediu o vendedor -, fique calma que nós vamos ajudá-la.
Ele tentou puxar a camisa, mas a essa altura tia Valda tinha o corpo empapado de suor e a camisa resistia mais do que um burro empacado.
- Eu puxo aqui e você puxa daí - disse para o gerente. Os dois se esforçavam, mas a cada puxão a velha ia junto com a camisa.
- Alguém aí, por favor, segure a madame - pediu o vendedor, recebendo de pronto a colaboração de vários voluntários. Tia Valda bufava no meio daquele sufoco e estava vendo a hora que iriam lhe arrebentar o sutiã. Na sua idade já não se sentia à vontade para fazer um topless numa loja de artigos masculinos.
- Por que não cortam essa camisa? - perguntou alguém do grupo de voluntários que seguia cambaleando pela loja, empencado em tia Valda.
- Não precisa cortar, nós vamos dar um jeitinho - disse o vendedor, que já suava mais que titia e não queria pagar a camisa.
A essa altura, já havia uma multidão à porta da loja assistindo à cena. Muita gente não entendia o que se passava, ao ver um grupo de homens agarrados a uma senhora de braços erguidos, entalada por uma camisa.
Uma velhinha, na porta, imaginou, com toda razão, que o grupo estava querendo despir tia Valda para violenta-la na loja, e resmungou:
- Esses vendedores são uns tarados!
A confusão aumentava. Tia Valda, camisa grudada no corpo, pedia que chamassem o Corpo de Bombeiros. Alguém sugeriu que sentassem titia.
- Amarrem essa velha numa cadeira!
Depois de muito esforço, a camisa acabou sendo rasgada, para alívio de tia Valda, que arfava como se tivesse passado todo esse tempo debaixo d'água. Ela agradeceu os aplausos e voltou à cabine para se recompor. NO momento em que abotoava a blusa, viu um braço varando a cortina do cubículo. Era o vendedor, entregando-lhe uma camisa e dizendo>
- A senhora não gostaria de experimentar esse outro modelo?
Carlos Eduardo Novaes
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